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sábado, 13 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - IV

Passado o Vale  Alto, pequeno lugarejo do concelho de Minde, eis-nos a chegar ao Covão do Coelho onde, ao contrário do ano passado, entrámos, diretamente,  quase sem parar, para a sala de refeições. Não ouve tempo para uma da mais ancestrais formas de interação com o divino e que, ao contrário de outras confissões religiosas, como o hinduísmo, tem sido, se não reprimida, pelo menos esquecida, do âmbito das expressões de religiosidade predominantes das sociedades ocidentais.  Quiçá pela cada vez maior tendência em confundir sensualidade com sexualidade, a dança não é, nos dias de hoje, um tipo de expressão que esteja integrada nas formas mais tradicionais do Cristianismo, nomeadamente o catolicismo. Na verdade, a dança, em si mesma, na sua raiz mitológica, nos tempos promordiais, em que a interação com o divino (antes deste se ter retirado para regiões remotas e inacessíveis) era uma manifestação de pura sensualidade, no seu sentido mais originário, expressava-se através de um diálogo intimista que se manifestava e experienciava, também, através dos sentidos. Creio que essa experienciação da divindade, pelo homem primitivo, se situava ao nível do que poderíamos chamar de private dancer, não no sentido em que segue a letra espetacularmente interpretada por Tina Turner (e que sendo profunda tal como é, podia ter seguido no sentido que sugiro), mas no que mais tarde o próprio Cristianismo veio adotar como um dos seus alicerces, através das palavras de Maria: "Faça-se em mim segundo a Vossa vontade".   
 Neste momento vejo um braço no ar, de um dos Caminhantes que, a esta distância, a minha vista cansada não consegue identificar, e que me grita:
- Isso que acabou de escrever não é verdade!!! Nós dançámos antes de nos voltarmos a fazer à estrada...
Sem dúvida caro Caminhante... e o espírito com certeza que foi o que procurei acima desvelar... no entanto... a interação com o divino, através da dança, como através de qualquer tipo de oferenda... consuma-se... antes da refeição...







































































































sexta-feira, 12 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - III

A partir de Minde o  percurso continua a ser um constante sobe e desce, intervalado com algumas retas, uma das quais nos levará ao Covão do Coelho e ao almoço. Nesta altura o caminhar já é meramente mecânico e na mente de todos nós, passadas as dificuldades iniciais do dia, está já o momento alto desta jornada que é a chegada a Fátima... Até lá ainda nos falta percorrer alguns quilómetros e, para quem tem problemas físicos, algum sofrimento para gerir. Esta será, provavelmente, uma das últimas oportunidades que tenho para observar a coluna de Caminhantes, pelo que dou um saltinho à frente e subo a uma pequena colina que me permite ter uma visão mais global do horizonte próximo e distante. Alcanço, com o olhar, toda a coluna, espalhada pela estrada sem fim... Observo-os, um a um, e, nos diferentes rostos, é possível vislumbrar os traços próprios do cansaço acumulado, as marcas do sofrimento continuado, mas, simultaneamente, a audácia, a coragem e  a firme determinação em chegar, em terminar o percurso iniciado há tantos quilómetros atrás... Em cada um dos Caminhantes... em cada rosto... em cada expressão... em cada olhar... está refletida toda uma experiência de vida, com os seus momentos bons... e menos bons...  momentos doces... e amargos...  ilusões... e desilusões... Quantas alegrias, quantas lágrimas, quantos sonhos, quantas tragédias, quantos amores... felizes... incompreendidos... proibidos... Amores  proibidos... gosto do tema... Quantos de vós não viveram já as grandes paixões... proibidas... infinitas... combatidas... eternas... totais... Quantos de vós não sentiram o coração a bater com a mesma intensidade que os grandes Amantes da História... Tristão e Isolda... Abelardo e Heloísa... Romeu e Julieta... Orfeu e Eurídice... Carlos e Helena... Pedro e Inês... amores ameaçados... proibidos... estrangulados... mas que sobreviveram ao tempo, à história, ás convenções sociais... Em todos eles há um momento que, a mim, me deixa particularmente emocionado... aquele momento... inolvidável... quando perante todas as pressões sociais, familiares, religiosas e outras...  a senhora está prestes a ceder...  a abdicar do seu grande amor... a reprimir aquele sentimento profundo que envolve o seu coração como um todo...  Nesse momento de grande tensão, em que o próprio tempo suspende o seu correr e se sente a presença do Amor como uma entidade própria, as palavras do cavalheiro são inesquecíveis:
" Podes-me recusar... ignorar... até maltratar... mas... ponho as mãos no fogo... e não me queimo... em como me amas tanto... como eu te amo a ti... Tenho a certeza absoluta... em como o amor que sentes por mim... tem a mesma força... a mesma intensidade... a mesma paixão... que o amor que eu sinto por ti... E assim será até ao fim dos nossos dias..."
Passo a passo, metro a metro, vamos vencendo esta estrada que nos vai trazendo já aos arrebaldes de Fátima... Falta muito pouco para encontrarmos a placa indicativa do Covão do Coelho... não... não... não se refugiou aqui... Este é outro Coelho...  


























































































































quarta-feira, 10 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - II

A primeira parte da manhã deste quarto dia  foi, realmente, complicada em termos climatéricos. O frio e o vento que tivemos que enfrentar foram obstáculos de monta, mas foram ultrapassados com a fibra, o estoicismo e a abnegação que caraterizam os Caminhantes da Senhora de Fátima. Durante todo o percurso inicial, que antecedeu a subida, e a primeira parte desta, até Casais Robustos, fomos açoitados por um vento muito forte que nos empurrava em sentido contrário. Observando a paisagem, a partir de um plano ligeiramente mais elevado, era possível vislumbrar que a coluna de Caminhantes, que se estendia ao longo da subida,  pintava todo o cenário em redor de uma tonalidade multicolor que se refletia no horizonte, desenhando um arco-iris cujo brilho e intensidade de cor jamais terá sido visto desde o príncipio dos tempos. Dir-se-ía que cada um dos Caminhantes emanava um tipo de luz colorida que se aproximava do tom mais puro de cada cor e a sua reflexão, simultânea, tingia o céu com um fantástico arco-celeste que o atravessava, e, a partir do qual, milhares de estrelas douradas se soltavam, combinavam e recombinavam, e preenchiam de nomes todo o espaço que medeia entre o Trópico de Cancer e o de Capricórnio... Olhai... Luís... Teresa... Paulo... São... João... Rosa... Carlos... Perpétua... Fernando... Ermelinda... José... Tantos nomes... se iluminam no céu... Manuel... Helena... António... Elisabete... Miguel... Heloísa... José António... Fátima... Nomes que adornam o firmamento até perder de vista... Estou no limite da minha capacidade de visão... Esperança... Humberto... Orlanda... Armelinda... Marília...  Mário... Sandra... Eva... Lina... Sandra... Laura...  Os nomes dos outros Caminhantes também estão lá inscritos mas fora do alcance deste olhar cansado que já não alcança determinadas distâncias... Era, de facto, um cenário deslumbrante aquele que os meus companheiros de estrada propocionavam  a quem se predispusesse a ignorar os elementos da Natureza e se deixasse arrebatar pela beleza e pela espiritualidade do momento. 
Passo a passo, firmemente, seguimos serra acima Passámos por Casais Robustos, e, a partir daí, o sol começou a dar um ar da sua graça, embora sem grandes efeitos em termos de temperatura. O vento amainou um pouco, deixou de ser muito forte para se ficar pelo forte mas o frio tornou-se ainda mais agressivo.  Assim foi o percurso até Minde, último local de passagem, antes de Fátima, onde é possível aceder ao multibanco. Minde é uma vila do concelho de Alcanena que tem a particularidade de ter uma língua própria, o minderico, reconhecida internacionalmene, como uma língua autónoma e viva. Esta língua fo desenvolvida pelos comerciantes e feirantes de Minde, que quando se deslocavam a outros povoados falavam uma língua própria entre eles para que ninguém percebesse o que combinavam. O minderico, a pouco e pouco, extravasou o âmbito dos comerciantes e feirantes e é, hoje em dia, falado por todas as pessoas da vila, independentmente do sua classe profissional ou condição social. 
Em Minde fizemos uma paragem para recuperar forças e  aliviar mazelas e, pouco depois, estávamos de novo na estrada rumo ao último destino antes de Fátima.