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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - V

A distância entre o Covão do Coelho e Fátima percorre-se em menos de nada. Hora e meia... talvez duas horas... que passam sem se dar verdadeiramente por isso. Naturalmente que a premissa inicial se mantém... Quem tem problemas físicos vai ter que  os continuar a gerir e o sofrimento que a eles está associado... Mas, nesta altura, até esse sofrimento passa para segundo plano... Eu, por exemplo, apanhei uma "boleia" com o Sr. Sousa Pais e, sem darmos por isso, chegámos a Fátima... Pela parte que me toca não dei nem pelo joelho nem pelo pé... Foi sempre a rolar...  A descontração é quase total entre os Caminhantes que, entretanto, receberam a companhia de outros que, por diferentes razões, apenas nesta altura se juntaram ao grupo... Conversa-se... trocam-se opiniões... relembram-se outros momentos e outros tempos... É já ali à frente... não exatamente ali...  Um pouco mais para lá... Isso... Já aí... Passamos o Valinho de Fátima...  e muitos de nós não reparamos sequer na placa indicativa da chegada à cidade... Quando damos por isso já estamos na Rotunda dos Pastorinhos... a aguardar que todo o grupo se reúna .. A partir daqui formamos uma coluna a dois e seguimos em silêncio até ao Santuário... Pessoalmente preferia que a coluna fosse entoando cânticos de louvor a Nossa Senhora... mas compreendo que sem antes terem sido ensaiados, possam não correr muito bem... Sim... provavelmente, o silêncio é a melhor opção... Cada um dos Caminhantes aproveita esse silêncio para, ao longo do caminho até ao Santuário, iniciar um momento de recolhimento, meditação e oração em harmonia espiritual plena com a Senhora de Fátima... Este momento, todo ele esboçado no âmbito da crença, da fé, da  afirmação de sentido, varia, naturalmente, de pessoa para pessoa, e depende do tipo de relacionamento interior que cada um tem com Nossa Senhora... Não posso, por isso mesmo, alongar-me sobre este ponto... Não posso escrever por nenhum de vós... pelo sentimento que vos anima... pela alegria que vos invade... pela emoção que vos domina... Poderia, isso sim, dissertar sobre a minha própria experiência... o que não me parece fazer muito sentido neste momento... Vou ficar em silêncio... não perturbando a vossa caminhada e esse momento tão íntimo de comunhão com Nossa Senhora... Com a câmara na mão vou acompanhando a descida da ladeira... a chegada ao Santuário... e o ponto alto desta jornada que se iniciou há alguns dias atrás em Sacavém... a colocação de uma flor, não numa qualquer floreira... mas no próprio regaço da Mãe de Deus... no seu regaço alvo... santo... imaculado... Um por um... cada um de vós entrega à Senhora a sua flor... e, com ela, toda uma vida... todo um mundo... todo um universo de ternura... de esperança... de redenção... Sinto um turbilhão de emoções a percorrer cada um de vós... emoções há tanto tempo contidas... abafadas... recalcadas... que arrasam todos os diques racionais que as contiveram... e explodem num clímax emocional irreprimível...  Não quero ser engolido por essa torrente... Não sou muito forte a gerir emoções... por isso agradeço que se despachem... não quero... não... não quero... Certo Sr. Fernando... Claro que tem também que colocar a flor... Já está... Colocadas as flores o grupo reúne-se, pela última vez, em frente ao Santuário, cumprimentando-se, agradecendo a companhia uns dos outros e, nesses momentos, (desculpem mas vou repetir o que escrevi o ano passado porque me parece que só isso faz sentido)... lágrimas de cristal rolam pelo rosto de cada um dos Caminhantes... Eu... não sou muito bom a gerir emoções... Por isso... vou-me afastar um pouco... subir aquela colina... Prefiro chorar sozinho...

PS: Por questões técnicas não pude fotografar na parte da tarde pelo que as fotos deste artigo são ainda da parte da manhã, até ao almoço...




PS1: O primeiro vídeo, em alguns momentos, perde nitidez, perde foco... Na altura não dei por isso... as minha desculpas a quem ficou desfocado. 

































































































































































sábado, 13 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - IV

Passado o Vale  Alto, pequeno lugarejo do concelho de Minde, eis-nos a chegar ao Covão do Coelho onde, ao contrário do ano passado, entrámos, diretamente,  quase sem parar, para a sala de refeições. Não ouve tempo para uma da mais ancestrais formas de interação com o divino e que, ao contrário de outras confissões religiosas, como o hinduísmo, tem sido, se não reprimida, pelo menos esquecida, do âmbito das expressões de religiosidade predominantes das sociedades ocidentais.  Quiçá pela cada vez maior tendência em confundir sensualidade com sexualidade, a dança não é, nos dias de hoje, um tipo de expressão que esteja integrada nas formas mais tradicionais do Cristianismo, nomeadamente o catolicismo. Na verdade, a dança, em si mesma, na sua raiz mitológica, nos tempos promordiais, em que a interação com o divino (antes deste se ter retirado para regiões remotas e inacessíveis) era uma manifestação de pura sensualidade, no seu sentido mais originário, expressava-se através de um diálogo intimista que se manifestava e experienciava, também, através dos sentidos. Creio que essa experienciação da divindade, pelo homem primitivo, se situava ao nível do que poderíamos chamar de private dancer, não no sentido em que segue a letra espetacularmente interpretada por Tina Turner (e que sendo profunda tal como é, podia ter seguido no sentido que sugiro), mas no que mais tarde o próprio Cristianismo veio adotar como um dos seus alicerces, através das palavras de Maria: "Faça-se em mim segundo a Vossa vontade".   
 Neste momento vejo um braço no ar, de um dos Caminhantes que, a esta distância, a minha vista cansada não consegue identificar, e que me grita:
- Isso que acabou de escrever não é verdade!!! Nós dançámos antes de nos voltarmos a fazer à estrada...
Sem dúvida caro Caminhante... e o espírito com certeza que foi o que procurei acima desvelar... no entanto... a interação com o divino, através da dança, como através de qualquer tipo de oferenda... consuma-se... antes da refeição...







































































































sexta-feira, 12 de julho de 2013

Peregrinação a Fátima 2013 - Quarto dia - III

A partir de Minde o  percurso continua a ser um constante sobe e desce, intervalado com algumas retas, uma das quais nos levará ao Covão do Coelho e ao almoço. Nesta altura o caminhar já é meramente mecânico e na mente de todos nós, passadas as dificuldades iniciais do dia, está já o momento alto desta jornada que é a chegada a Fátima... Até lá ainda nos falta percorrer alguns quilómetros e, para quem tem problemas físicos, algum sofrimento para gerir. Esta será, provavelmente, uma das últimas oportunidades que tenho para observar a coluna de Caminhantes, pelo que dou um saltinho à frente e subo a uma pequena colina que me permite ter uma visão mais global do horizonte próximo e distante. Alcanço, com o olhar, toda a coluna, espalhada pela estrada sem fim... Observo-os, um a um, e, nos diferentes rostos, é possível vislumbrar os traços próprios do cansaço acumulado, as marcas do sofrimento continuado, mas, simultaneamente, a audácia, a coragem e  a firme determinação em chegar, em terminar o percurso iniciado há tantos quilómetros atrás... Em cada um dos Caminhantes... em cada rosto... em cada expressão... em cada olhar... está refletida toda uma experiência de vida, com os seus momentos bons... e menos bons...  momentos doces... e amargos...  ilusões... e desilusões... Quantas alegrias, quantas lágrimas, quantos sonhos, quantas tragédias, quantos amores... felizes... incompreendidos... proibidos... Amores  proibidos... gosto do tema... Quantos de vós não viveram já as grandes paixões... proibidas... infinitas... combatidas... eternas... totais... Quantos de vós não sentiram o coração a bater com a mesma intensidade que os grandes Amantes da História... Tristão e Isolda... Abelardo e Heloísa... Romeu e Julieta... Orfeu e Eurídice... Carlos e Helena... Pedro e Inês... amores ameaçados... proibidos... estrangulados... mas que sobreviveram ao tempo, à história, ás convenções sociais... Em todos eles há um momento que, a mim, me deixa particularmente emocionado... aquele momento... inolvidável... quando perante todas as pressões sociais, familiares, religiosas e outras...  a senhora está prestes a ceder...  a abdicar do seu grande amor... a reprimir aquele sentimento profundo que envolve o seu coração como um todo...  Nesse momento de grande tensão, em que o próprio tempo suspende o seu correr e se sente a presença do Amor como uma entidade própria, as palavras do cavalheiro são inesquecíveis:
" Podes-me recusar... ignorar... até maltratar... mas... ponho as mãos no fogo... e não me queimo... em como me amas tanto... como eu te amo a ti... Tenho a certeza absoluta... em como o amor que sentes por mim... tem a mesma força... a mesma intensidade... a mesma paixão... que o amor que eu sinto por ti... E assim será até ao fim dos nossos dias..."
Passo a passo, metro a metro, vamos vencendo esta estrada que nos vai trazendo já aos arrebaldes de Fátima... Falta muito pouco para encontrarmos a placa indicativa do Covão do Coelho... não... não... não se refugiou aqui... Este é outro Coelho...