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terça-feira, 3 de setembro de 2013

domingo, 1 de setembro de 2013

Festas em Honra de Nossa Senhora da Saúde - Segunda-Feira - I

Iniciaram-se na passada segunda feira, dia 26, na cidade de Sacavém, as festas em honra de Nossa Senhora da Saúde. Estas festas têm a sua origem num acontecimento que marcou, de forma decisiva, o relacionamento entre o povo desta localidade e a Mãe de Deus. Segundo as crónicas e lendas antigas terá existido em Sacavém, desde os séculos XI/XII, próximo do local onde se ergue a atual capela,  uma ermida dedicada a Santo André, um dos mártires da Igreja. Essa ermida funcionava como albergaria para peregrinos e, simultaneamente, como hospital de leprosos. Em 1599 uma epidemia de peste com origem na capital, Lisboa, alastrou até Sacavém, dizimando a sua população. Homens, mulheres e crianças morriam diariamente levando ao desespero famílias e autoridades.  
Á época os mortos eram sepultados nos adros das igrejas, o que trouxe um novo problema aos sobreviventes, pois deixou de haver espaço para lá sepultarem os seus defuntos. Por essa razão começaram a ser abertas valas no exterior da ermida. Referem as crónicas desses tempos que ao ser aberta a primeira vala foi encontrada uma estátua da Virgem com o Menino ao colo. A notícia correu o povoado pelo que se passou ali a juntar muita gente que, em súplicas, preces e procissões pedia à Senhora a salvação do povo. Algumas versões das crónicas e lendas da época referem que houve um momento em que uma sentida prece foi cantada por uma senhora muito, muito bonita, de branco e azul vestida, com um olhar terno e profundo, e uma  voz tão harmoniosa, que recordava o suave cantar dos rouxinóis que inspiraram o rei David a redigir os Salmos, lá, nas longínquas terras de Judá. Ouvindo tal sonoridade, e percebendo que tanta excelência apenas podia provir de um coração dotado de uma ímpar generosidade, Nossa Senhora intercedeu junto de Seu Filho e a partir desse momento a peste cessou e mais nenhuma vida foi por ela ceifada. Desde essa altura Nossa Senhora da Saúde passou a ser venerada por todos os sacavenenses e há longos anos que, por altura do primeiro Domingo de Setembro, se realizam, na cidade, grandes festejos em sua honra.

Na segunda feira, dia 26, iniciou-se o tríduo preparatório para as cerimónias, com uma missa matinal, seguida de terço. À noite aconteceu outra missa, esta liderada pelo senhor padre Michael Valiyamurathankal, Vigário Paroquial do Estoril, que centrou a sua homilia na necessidade de percebermos o papel de Maria como a Nova Eva*. Este papel não se circunscreve apenas à Sua condição de Mãe de Cristo, como aquela que aceitou oferecer, incondicionalmente, o seu útero ao Filho de Deus, mas, também, como a Mulher que dedicou toda a sua vida à educação e preparação de Jesus para os momentos em que Este teria, necessariamente, que assumir a sua condição divina.  Para tal Maria esteve sempre presente na vida de Seu Filho, do nascimento em Belém à morte em Jerusalém. Uma presença que não foi meramente física, mas, também, e por inspiração divina, espiritual. Uma presença que tem um potencial simbólico mais profundo no final da vida terrena de Cristo, nomeadamente em dois momentos (não gosto particularmente do termo "estação" que aponta para uma cristalização de algo que jamais poderá ser cristalizado. Os diferentes momentos da Via Sacra, como a própria Via Sacra, são,  sempre, atuais e por isso mesmo acompanham a evolução do homem no tempo) nos quais as palavras não pronunciadas por Maria ecoaram, de forma sublime, pelos quatro cantos da Criação:
"Meu Filho... as tuas lágrimas são as minhas lágrimas... as tuas dores são as minhas dores... e, através do Teu sofrimento, indicarei aos homens o caminho para Ti..." É neste âmbito que Jesus agonizante a proclama como a Mãe de todo o género humano, entendendo-a, assim, como a  Nova Eva. Maria não deve, pois, ser entendida como uma entidade exterior, distante e meramente referencial... mas... sentida como uma presença interior, viva, dinâmica  no nosso próprio coração...
* Há cerca de dois meses, num dos artigos sobre a Peregrinação a Fátima, utilizei o conceito de Nova Eva. Naturalmente, e até pelo sentido que dei ao texto, a Nova Eva do meu artigo, não é a Mãe de Deus. Apesar de tal me parecer óbvio, achei por bem fazer, desde já, este esclarecimento. Just in case...