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terça-feira, 17 de junho de 2014

Peregrinação a Fátima 2014 - Primeiro dia - IV

O trajeto entre Alhandra e Vila Franca de Xira é relativamente rápido. Uma ciclovia com piso próprio para caminhadas, uma suave brisa a soprar do Tejo e a ponte a servir de referência visual de aproximação à localidade onde iremos encontrar o resto do grupo. Nesta altura todos nós estamos relativamente  frescos, embora mais ou menos conscientes do que ainda falta percorrer até ao final do dia. Neste primeiro dia, especialmente para quem parte de Sacavém, é importante gerir o esforço para não se chegar à Azambuja, ao fim da tarde, no limite da resistência física. Todavia, uma dor, uma indisposição, um sinal menos positivo,  pode surgir a qualquer momento e a qualquer um de nós. Vem-me à memória o ano de 2012 em que foi exatamente nesta parte do percurso, fácil e plano, que me senti completamente exausto e com dores nos joelhos, nos tornozelos... enfim... Até a sola dos pés parecia que assava ao contacto com o chão. Nestas altura há que cerrar os dentes, não mostrar o que nos vai na alma e, metro a metro, passo a passo, aproximarmo-nos do próximo ponto de descanso onde poderemos aliviar alguma mazela mais difícil de gerir. É importante, também, não esquecer  que nestes momentos mais difíceis, como em todos os outros, não estamos sózinhos e que Nossa Senhora está sempre presente com a Sua palavra que nos guia, nos acompanha, nos conforta.
Em Vila Franca juntamo-nos ao resto do grupo. São Caminhantes que já fizeram o percurso entre Sacavém e Vila Franca,  em datas anteriores, e, neste dia,  partem desta vila ribatejana. Há quem faça um percurso maior do que o que nós fizemos. João Apolinário, o Sr. Fernando e a Dª Lídia, por exemplo, fazem Cascais-Vila Franca, Luís Barrento parte da Apelação. Estes momentos têm sempre alguma emoção à  mistura pois dá-se o encontro com novos Caminhantes e o reencontro com companheiros (as) de tantas jornadas... de tantos quilómetros. Sr. Reis e esposa, Carlos, Dª Elisabete,  Sr. Humberto, Sr. Fernando e Dª São...  são algumas das caras que, nesses momentos, reencontramos com alegria...
Aqui, no jardim de Vila Franca, Dª Ermelinda, com o apoio de Dª Helena, faz a chamada, dá-nos as últimas instruções e orientações e, em conjunto, oramos a Nossa Senhora pedindo a Sua proteção para o caminho que nos espera até Fátima. O Sr. Carlos incorporou-se também na coluna e termina este momento de introspeção com a Oração do Peregrino.

































  






domingo, 15 de junho de 2014

Peregrinação a Fátima 2014 - Primeiro dia - III

De Alverca, já manhã, a Alhandra, é um saltinho. Com o estômago reconfortado rapidamente cobrimos os poucos quilómetros que medeiam entre as duas povoações. Na chegada a Alhandra há um momento que se diferencia dos outros pois quebra a rotina, de certa forma monótona, de um percurso todo ele, até aí, feito em alcatrão urbano e suburbano. Atravessamos a Estrada Nacional, e subimos e descemos um conjunto de escadas que desembocam no piso em paralelo que antecede o percurso pedonal que nos levará a Vila Franca de Xira. 
Podemos, muitas vezes, nem nos apercebermos destes momentos diferenciadores, mas eles são, de facto,  importantes, pois quebram o ramerrão que, a partir de certa altura, começa a enformar a nossa sensibilidade e, com ela a própria atividade cerebral. Como em tudo na vida, a rotina, o costume, o hábito que se repete impede a inovação, cerceia a criatividade, apaga o fogo quente da paixão. 
O percurso pedonal, que liga Alhandra a Vila Franca, é, em toda a sua extensão, acompanhado pelo Tejo, o que nos permite interagir com as diferentes dimensões de espiritualidade que emergem do suave murmurar das águas do rio. Os rios, os lagos, as montanhas, as florestas, todos os seres criados, animados ou não, são dotados de uma espiritualidade própria, inculcada pelo sopro divino que os criou e os retirou da inefável dimensão  do Não-Ser. A interação com este tipo de cenários permite-nos aceder a diferentes estádios de consciência cósmica e com eles a (mais ou menos) clara percepção da presença divina no mais ínfimo detalhe da Criação. Pessoalmente prefiro interagir com o mar... Tem um ritmo próprio, um dinamismo interno que me chama... me toca... me seduz... O mar... No mar podemos soltar sentimentos... mágoas... emoções... No mar... não se notaram as lágrimas que chorei por te ter perdido... sem jamais te ter tido... 














sexta-feira, 13 de junho de 2014

Peregrinação a Fátima 2014 - Primeiro dia - II

Os primeiros quilómetros são percorridos em ritmo de adaptação ao esforço. Dª Eva, na liderança dos caminhantes, impõe uma passada suave, fácil de seguir, impedindo alguns excessos que possam pôr em causa a coesão de todo o grupo. Para quem faz a caminhada pela primeira vez é importante que sinta, logo desde o início, que é membro de um grupo que, enquanto tal, está  unido pelo lema comum a todos os grupos: "Um por todos... Todos por um..." Ninguém fica para trás... Ninguém desiste... Aquilo que iniciámos juntos... juntos iremos terminar... Para isso é necessária a colaboração de todos. Cada um de nós é responsável por si... pelo próximo... pelo grupo... A ligação é feita da frente para trás... Algo que aprendi há muitos... muitos anos... da pior maneira...
" - A ligação é feita da frente para trás... Cada um de vós é responsável por si e pelo camarada que vem imediatamente atrás... Ai daquele que não souber...
- Dúvida...
- (oh não... ele... outra vez...) Diga...
- E se o dito cujo camarada  sentir necessidades fisiológicas...?
- 20... completas...
- Mas... era apenas uma dúvida...
- 30... completas
- 1-2-1... 1-2-2... 1-2-3...1-2-4... 1-2-5...
- O zero também é número...
- 1-2-0... 1-2-1... (...)
Trinta e tal extensões de braços no solo, trinta abdominais e trinta pulos de galo depois, perante o olhar divertido do resto do pelotão, o infeliz ouve uma voz, ironicamente suave, soprar-lhe ao ouvido:
- Ainda tens alguma dúvida...?
- Arf... arf... não... poucochinhas...
- Poucochinhas...? Isso quer dizer que ainda tens uma réstia de dúvidas...?
- Não, não... Nenhuma... Absolutamente esclarecido...
 - Óptimo... Fica então esclarecido sobre algo mais...
- Sim...?
- Sim... A partir de agora... estou d' olho em ti... Grrrrrrrrrrrrrrrrr...."  Enfim... o que um homem sofre...
Pouco tempo depois passamos pela rotunda ao largo da Bobadela. Noutros anos o Sr. Carlos Conde aguardava neste local para se incorporar na coluna... Este ano... ninguém nos espera... e seguimos em frente pela estradas saloias, onde os primeiros sinais de vida urbana vão surgindo... São João da Talha... as senhoras que, ainda de noite, fazem as limpezas  nas pequenas e grandes empresas... Póvoa de Santa Iria... o trânsito torna-se mais intenso... há mais pessoas nas paragens da Rodoviária... nos cafés... à beira da estrada... Pessoas que nos olham... de diferentes formas... Curiosas... compreensivas... irónicas... Pessoas... Alverca... a paragem para o pequeno almoço... numa pastelaria que serve uns croissaints simples absolutamente deliciosos (nhan... nham... nham...)... Se me dão licença...